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O Novo Livro Dos Espíritos

 

Um grupo espírita francês lançou este livro com o título ambicioso  e a expectativa de “dar novamente a palavra aos espíritos, sob a forma de perguntas e respostas, sobre os grandes temas da metafísica e da filosofia, em continuidade a um espiritismo atualizado”.

 Não poderia deixar de mover céus e mares até ter em mãos meu exemplar.  Fui direto ao capítulo “Filosofia”.  É entusiasmante.   O espiritismo evoca a presença do espírito no mundo e do homem entre seus irmãos...   A ascese não será jamais solução para a contradição entre a superabundância de uns e a pobreza e ignorância de outros...   O corpo e o espírito têm uma única função:  agir, e agir sem cessar...   O silêncio meditativo pode até ser uma introdução à ação; mas, nesses tempos de incertezas, é preciso cessar de introdução, é preciso agir...   É cegueira querer chegar a Deus, ignorando os homens...    A encarnação não permite êxtase;   ela exige ação...  A verdadeira espiritualidade é o caminho da abertura, do olhar sobre os outros, da atenção ao mundo real, do caminho da justiça, da partilha, da vontade e do trabalho. 

Encontrar um livro espírita dizendo isto e nesta linguagem, convidando a uma ação tão direta e imediata no  mundo, é ler e correr a festejar.  E tem mais.

Antes da Conclusão há um capítulo dedicado a pensamentos e ditados dos espíritos onde Victor Hugo escreve: “Famílias, não vos fechais como ostra em sua concha, dispersai-vos nas lágrimas das crianças que morrem, e são também vossas;  para que a Terra se espiritualize, é necessário que ela se humanize”.   E Louis Aragon: “É preciso aprender a rejeitar todas as formas de dominação econômica a partir do dinheiro”.  E Charles De Gaulle:  “Um grave perigo ameaça este país, o perigo da direita extremista, o perigo de um fascismo real.  Uma crise de civilização atravessa o planeta inteiro, é uma crise de valor, de valor moral”.

Eu devia ter ficado por aqui.  Nec plus ultra,  não diz o ditado?     Mas, fui adiante:  resolvi  lê-lo todo.

O livro começa com o percurso do médium,  parecido com todos os percursos.  Depois, traz uma comovente mensagem de Kardec sobre o seu passamento, seguido de uma queixa contra a idolatria de que é objeto seu túmulo. Na seqüência vem a história do grupo.  Em 1974 um pequeno número de pessoas resolve experimentar, por curiosidade, os fenômenos paranormais.  Logo se comunica Allan Kardec.  Interrogação:   nenhum deles conhece o cára!  O espírito pede que eles se dirijam ao Père Lachaise, ver quem é ele.  Vão, conhecem e passam a estudar suas obras.  Em 1977 já estão fundando um grupo espírita sério e permanente.  Dessa vez, eles evocam Kardec.  O espírito  vem e numa emocionante mensagem “lembra o estado irrisório no qual se encontram alguns elementos   disparatados representando mais ou menos o ideal espírita;  e foi com gravidade e firmeza que Allan Kardec confia a imensa responsabilidade de criar um círculo tendo por objetivo retornar o espiritismo à sua nobreza original e dar-lhe um sopro organizador até então perdido”.  Nasce o Cercle Spirite Allan Kardec, de Nancy, onde o próprio Kardec “se manifesta regularmente, sustentando o grupo no desenvolvimento do que ele deseja ver renascer”.

Como o grupo  afirma  nos seus sites e periódicos que o Espiritismo não é religião, o livro é definido como não religioso,   e é com postura experimental que interroga os espíritos sobre Deus e o Universo, os profetas, os enigmas das civilizações antigas, o além sob todas suas facetas,  a medicina, os fatos da sociedade, a ciência de hoje, o aborto, o meio ambiente, entre outras atualizações.

Ante tão progressista doutrina social, importa se eles afirmam que o big-bang não existiu, que o universo não está em expansão, que os buracos negros não são o último estágio da vida das estrelas sendo que sua impressionante gravidade se deve a “energias espirituais”, e que os cometas provocam guerras e revoluções?

Importa se os grandes avatares da história parece terem se europeizados e Buda aparece lamentando o marasmo dos seguidores de sua doutrina, Mahomet aparece lamentando que suas idéias sirvam à violência, Moisés se preocupa em explicar a passagem do Mar Vermelho como se não fosse lenda,  e um Jesus marcusiano transou com muitas mulheres, entre elas Maria Madalena, mas teve filhos, dois,  apenas com Cristina, que mais tarde foi literalmente comida pelos leões dos romanos?

E alguém pode negar peremptoriamente que os Atlantes existiram e se evadiram pelo Triângulo das Bermudas,  que os druidas moviam pedras com o pensamento e ajudaram uns visitantes do planeta Mektra a provar o poder do espírito construindo Stonehenge, local que exala uma forte energia boa para a saúde e para o espírito?

Seria uma ousadia desnecessária “revelar” aos homens que o forno de microondas é uma invenção perniciosa, que a clonagem é uma pesquisa estúpida, que os zumbis existem mas não funcionam na Europa, e que Walt Disney só não sofre as conseqüências da criogenização   de seu cadáver porque seria espírita e pertenceria a um grupo que tomou consciência de seu erro?

Somos responsáveis pelos nossos atos tanto quanto pelas nossas crenças,  já que essas coisas se influenciam.   Li, continuo lendo, o livro, e formando minha opinião, ainda que  in pectore.  São 370 páginas lançadas corajosamente à apreciação pública, ainda que, por enquanto, apenas em francês.  Os que se interessarem certamente não terão dificuldade em adquirir o livro no site do grupo, e construir também suas próprias e respeitáveis opiniões.

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Referência do Livro citado:

LE NOUVEAU LIVRE DES ESPRITS

Karine Chateigner

Éditions Alain Labussière

France - 2002

Collection Cercle Spirite Allan Kardec

www.spiritisme.com

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Autor do Artigo:

João Alberto Vendrani Donha
Curitiba, Paraná
agosto 2006
Centro Espírita Luz Eterna - CELE
cele@cele.org.br.br

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