Por Uma Atitude Filosófica
"O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o fato das manifestações, os princípios de filosofia e de moral que delas decorrem e a aplicação desses princípios." Allan Kardec[1]
O ESPIRITISMO COMO FILOSOFIA
Na página de rosto da segunda edição de O Livro dos Espíritos Kardec deixa-nos
entrever, de pronto, o caráter predominantemente filosófico do Espiritismo. Mais ainda,
quando afirma que, na generalidade, a doutrina presente nessa obra fundamental ligava-se
à Filosofia Espiritualista[2], ou seja, situava-se entre os saberes das filosofias que
compreendiam haver no homem algo além da matéria.
Entretanto, em seu aspecto particular, esse livro continha a Doutrina Espírita, o que
quer dizer, a filosofia oriunda dos ditados dos Espíritos em seus princípios
específicos ou fundamentos.
Logo, é fácil identificar a postura do Codificador em apontar a razão de ser de O
Livro dos Espíritos aos seus leitores: apresentar o conteúdo filosófico da
Doutrina sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com a
humanidade reencarnada, as leis morais da vida, a vida presente e a futura, além de se
ocupar do porvir da humanidade.
Segundo nos aponta Chibeni (2002)[3], a palavra filosofia, empregada por Kardec, se
referia a metodologia dessa nova disciplina no âmbito do espiritualismo. Diferente do
senso comum ou da concepção acadêmica contemporânea, filosofia - como no caso de O
Livro dos Espíritos - era uma categoria empregada a respeito de qualquer disciplina que
se ocupasse em abordar de forma racional e sistemática determinada área de saber.
Esse significado que o Espiritismo apresenta em seu caráter filosófico remete ao
entendimento presente entre os pensadores da Antigüidade Clássica o que consistia a
Filosofia em si mesma. Recordemo-nos, como nos diz o Professor Herculano Pires que, muito
embora sejam muitas as definições de Filosofia, "a que subsiste como essencial é
ainda a de Pitágoras: 'Amor da
Sabedoria'. Daí a exatidão daquele axioma: A Filosofia é o pensamento debruçado sobre
si mesmo."[4]
Esse conceito vigorava no contexto sócio-histórico da Codificação e, filosofia, no
sentido espírita do termo, deve ser apreendida da mesma forma, muito embora, a
adjetivação "espírita" remonte à sua origem e princípios, ou seja,
direciona-nos aos saberes difundidos pelos Espíritos e sistematizados na produção
kardequiana, enquadrando-se no âmbito da tradição filosófica de gênero
espiritualista.
Quando falo na produção de Allan Kardec, refiro-me às suas obras fundamentais e
complementares, bem como, à Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos -,
publicada e redigida pelo egrégio Codificador do ano de 1858 ao de 1869, até a sua
desencarnação. Tomemos nota: esse trabalho foi inspirado e dirigido pelo Espírito de
Verdade.
Aliás, deduzo que se nós conhecêssemos melhor o conteúdo dessa última publicação -
a Revue - penso que apreciaríamos o Espiritismo de maneira bem diferente da que o senso
comum, predominante em nossas fileiras, o encara.
A TÔNICA DA ATITUDE FILOSÓFICA: O PENSAMENTO LIVRE
A postura dos filósofos, de maneira geral, nos remete ao espanto com o mundo, à
admiração frente ao que parece trivial ou de estranhamento ao que é familiar e que,
costumeiramente, tem suas nuances despercebidas pelo sujeito cuja leitura de mundo se
prende somente ao senso comum, à consciência não-reflexiva da realidade objetiva e
subjetiva.
O que define o filósofo não é a formação bacharelesca nessa área de saber, pode-se
ser diplomado em Filosofia sem que se tenha uma postura de permanente problematização do
mundo. O que o caracteriza é a entrega pessoal a uma saudável inquietude ante as
contingências em que se desdobra a sua existência.
O exercício de livre pensar ocorre quando o ser, que se põe a refletir sobre a vida,
alça vôo sobre os próprios esquemas mentais a que está condicionado pelas suas
circunstâncias evolutivas e materiais, e se permite enveredar na feliz busca da verdade,
num jeito especial de pensar certo - com um rigor metodológico cujo ponto de partida é o
da dúvida -, como lembraria Paulo Freire[5].
A postura filosófica ou de livre pensamento consiste numa conquista antropológica,
histórica e espiritual de libertação da escravização do pensamento, verdadeiro
corolário da extinção da escravidão étnica ou de classe social que deveria reinar nas
relações humanas, quando inspiradas pela justiça e pela fraternidade.
O sujeito que pensa com liberdade tampouco se amolda à impostura daqueles que, em nome do
saber que têm e não partilham, procuram dominar as massas nos diversos setores da vida
social em que atuam, disseminando concepções ultramontanas que somente objetivam impedir
os outros de "serem mais", de pensarem com criticidade e de viverem cônscios da
Lei Natural, sem gurus ocasionais.
O advento do Espiritismo, numa época em que se elogiava o primado da razão e o
desenvolvimento vertiginoso das ciências, chancela a liberdade de pensar como um
resultado da Lei de Liberdade, apresentada por Kardec na terceira parte de O Livro dos
Espíritos.
Oportunamente, o próprio Codificador vai dar-nos condições de compreender melhor essa
palavra-chave presente na Doutrina Espírita. No artigo "O livre pensamento e a
liberdade de consciência" diz Kardec:"O livre pensamento, na sua acepção mais
ampla, significa: livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada; ele simboliza a
emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física;
ele não quer mais escravos do pensamento do que escravos do corpo, porque o que
caracteriza o livre pensador é que ele pensa por si mesmo e não pelos outros, em outras
palavras, que sua opinião lhe pertence particularmente. Pode, pois, haver livres
pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre pensamento
eleva a dignidade do homem; dele faz um ser ativo, inteligente, em lugar de uma máquina
de crer.[6]
Vejamos que, dessa citação, emerge o entendimento de que livre pensamento é fé
raciocinada, manifestação clara da liberdade de consciência que assiste todas as
criaturas como um direito inalienável e expressão das divinas leis.O livre pensar
dignifica o indivíduo, pois o mesmo abandona a indigência intelectual da crença cega e,
ao edificar na prática a própria autonomia, aprendea pensar com criticidade,
libertando-se da preguiça mental que tem acometido multidões a um jeito medíocre de ser
e estar no mundo.Não se trata de auto-suficiência, mas de uma atitude de superação da
postura de adestramento e condicionamento à tutela alheia, historicamente produzida no
seio das teologias dogmáticas.
O Espiritismo, como proposta filosófica que jorra do mundo dos Espíritos, sugere ao
adepto esclarecido a prática consciente da liberdade de pensar - uma atitude filosófica
sem medo ou culpa -, amadurecendo a sua própria reflexão sobre o conteúdo que a
Doutrina apresenta, mediante o estudo perseverante, problematizador e sério dos textos de
Kardec.
OS ESPÍRITAS SÃO LIVRES
PENSADORES
Ninguém estranhe a naturalidade com que podemos lidar com a expressão "livre pensador"
na seara espírita, pois, o mestre Allan Kardec, ao fazer um balanço sobre o movimento
espírita de 1867, esclarece que podemos entender como livres pensadores todas as pessoas
"que não se sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de
espiritualidade".
Destaca ainda, noutro texto, que essa qualificação não especifica nenhuma crença em
particular, mas que poderia ser aplicada nas diferentes nuanças do espiritualismo
racional, tanto quanto à incredulidade e, nesse caso, "todo homem que não se guia
na fé cega é, por isto mesmo, livre pensador; a esse título, OS ESPÍRITAS SÃO TAMBÉM
LIVRES PENSADORES."[7]
Logo, recordemos que a fé raciocinada professada no Espiritismo preconiza a liberdade de
pensar ou o livre exame, atividade intelectual indispensável ao seu adepto sincero e
lúcido, a fim de que desenvolva uma atitude filosófica ante a Doutrina dos Espíritos.
Conclui-se, desse modo, que o espírita antes de se tornar um crente deverá se constituir
num livre pensador porque somente merece crença aquilo que se compreende racionalmente e,
portanto, se tem convicção.
[1] O Livro dos Espíritos,
conclusão, item VII.
[2] O Livro dos Espíritos, introdução, item I.
[3] CHIBENI, Silvio Seno. A página de rosto da segunda edição de O Livro dos
Espíritos. In: Jornal Mundo Espírita. FEP: Curitiba, março, 2002, pp6-7.
[4] PIRES, Herculano. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia,
1983, p. 9.
[5] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática
educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
[6] Revista Espírita, fevereiro de 1867.
[7] Revista Espírita, janeiro de 1867.
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Autor: Vinícius Lousada
vlousada@hotmail.com
Artigo
originalmente publicado na RIE de dezembro de 2008
Publicado com autorização do autor.
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